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Muito mais do que deveria ser normal, Kishiar sempre se viu pensando em Yuder.
No quão bonito ele era, em sua personalidade de certa forma adorável, em suas habilidades sempre acima da média e seu esforço para melhorar. Yuder era o tipo de pessoa impossível parar de pensar sobre. E, acima de tudo, Kishiar sempre se perguntou se Yuder se remoia pelo o que aconteceu entre eles. Se ele desejava mudar tudo entre eles.
Receoso de que aquele sentimento persistente em seu peito crescesse, Kishiar preferiu acreditar que sim.
Ele escolheu e forçou a manter tudo o que sentia sobre Yuder no nível mais raso que podia. Ele agarrou e tentou amarrar tudo no fundo de seu peito, cobrindo sob um tapete tão fino quanto uma folha de papel.
Ele falhou.
Ele falhou miseravelmente e tão rapidamente que sentiu-se estúpido.
No entanto, o alívio egoísta que percorria todas as suas veias ao se aproximar de Yuder, que nunca desviou os olhos, que nunca se afastou e apenas inclinou-se por mais, tornou-se outro meio de tortura, queimando sua carne.
Kishiar nunca iria culpar Yuder se ele realmente o desprezasse, mas, Deus , como ele ficou aliviado em ver aquela expressão no rosto dele.
Como ele ficou doentiamente feliz quando os olhos de Yuder ficaram trêmulos, quando ele tropeçou em suas próprias palavras. Quando a expressão penosa, implorando por qualquer coisa de Kishiar, nunca foi substituída por raiva.
Kishiar falhou, mas ele ficou grato em saber que não foi o único.
Finalmente, ele acreditou ingenuamente, tudo teria um fim. Muito mais complicado do que poderia ter sido, mas a relação deles nunca foi simples.
De fato, ele foi muito ingênuo em acreditar que podia ser aquele a pôr um ponto final entre eles.
A última coisa que esperava ao ter Yuder sobre si, infelizmente não como gostaria, era acordar outra vez. Mas lá estava ele, em sua cama, cercado por cobertas e o corpo dolorido, sem qualquer cicatriz em seu peito.
Há três dias o céu ficou vermelho, contou Nathan. Desde então, pessoas começaram a desenvolver habilidades nunca vistas antes e Kishiar repentinamente mandou-o esvaziar o castelo. Quando Nathan subiu a torre mais alta do oeste do castelo e encontrou Kishiar com a Espada Divina ao seu lado, a saúde cada vez mais deteriorada dele, como um milagre, havia melhorado.
Kishiar já sabia de tudo aquilo. Ele se lembrava mais do que perfeitamente daquele momento.
A Pedra Vermelha cortou o céu como uma estrela cadente, mas iluminou o mundo como o Sol. Pelos momentos que pareceram horas até o céu voltar ao normal, a pedra caiu nas montanhas Rik.
Sua mente imediatamente foi para a última pessoa que viu, o rosto que decorou tão bem quanto seu próprio corpo.
Era extremamente risível que Kishiar desejasse tanto vê-lo quando Yuder o matou.
Todavia, ele não podia se dar a tal luxo. Infelizmente, ele não pode correr atrás de Yuder. Não ainda. Não quando tudo mudou. Quando o começo de uma nova era se iniciou.
— Nathan — chamou ele, abotoando a camisa. O homem já observava-o atentamente, segurando o colete branco. Kishiar sorriu e o pegou —, vamos visitar o Imperador.
Ciente da bagunça que aquele mundo virará, é melhor começar a se mover enquanto está cedo.
———
Ver o rosto do Imperador, seu irmão, saudável se comparado àquele fúnebre do futuro, foi ainda mais angustiante do que os momentos que esteve sentado ao lado da cama de onde Keilusa passou a raramente sair.
Tirar de sua mente a imagem do corpo morto de sua única família de sangue se mostrou ser muito difícil uma vez que ficou cara a cara com ele outra vez. Voltar no tempo era uma experiência muito mais dolorosa do que ele inicialmente imaginou que seria. Principalmente porque ele sabe que, diferente da Cavalaria e dos muitos outros conflitos que futuramente estaria envolvido, não havia o que fazer quanto a situação de Keilusa.
Ele só estava tendo um pouco mais de tempo com ele, uma chance de esclarecer os mal-entendidos deixados para trás, de se aproximar como anteriormente se privou.
— Hah …
Nathan olhou-o enquanto colocava mais chá na xícara vazia. Desde que despertou, os suspiros profundos de Kishiar tornaram-se cada vez mais comuns. Naqueles momentos, em que ele ficava até tarde da noite no escritório, era quando Kishiar os vocalizava ainda mais.
Junto a isso, Nathan percebeu uma leve mudança no comportamento de Kishiar. Não era nada anormal, ele continuava o homem que sempre serviu, com o mesmo temperamento e atitudes repentinas, mas, às vezes, a mente dele parecia ir para outro mundo. Ao mesmo tempo, ele estava tão motivado e com tantas novas ideias que Nathan sentia-se aliviado que essa mudança ocorreu.
Não parecia uma mentira o que as pessoas diziam sobre alguém mudar ao voltar da morte. Tal mudança foi mais do que bem-vinda por Nathan quando ele viu Kishiar agonizar de dor por noites, já conformado com seu fim evidente.
Ele se arrependeu de ter aceitado tal mudança quando Kishiar repentinamente decidiu ir, completamente sozinho, até as montanhas Rik.
— Eu serei cuidadoso, Nathan. Não se preocupe tanto, sim?
Era difícil acreditar no que Kishiar dizia quando ele tinha um sorriso tão travesso, mas Nathan não tinha o poder para pará-lo. Foi sua vez de suspirar audivelmente, o que arrancou uma risada sincera do loiro, muito animado para sua “investigação extremamente séria”.
O cavalo preto deixou o castelo sem sequer ser notado, como se nunca tivesse existido. Nele, apesar do sorriso, Kishiar sentia seu coração tão agitado quanto nunca esteve nos dois meses desde que voltou no tempo.
Uma agitação que não era desconhecida, que ele sentia frequentemente ao entrar pela janela do lugar que uma vez foi seu escritório, apenas para encontrar o novo comandante outra vez.
Era diferente daquelas vezes.
Kishiar nunca foi ao lugar e Yuder nunca saiu da Cavalaria, mas ele chegou na vila tão facilmente que pareceu natural, como se tivesse visitado-a até cansar. No entanto, ele passou por ela sem se preocupar em olhar as casas. Uma das montanhas mais longe, com flores espalhadas do pé ao topo, com fumaça subindo por uma chaminé difícil de avistar, atraiu a atenção dele.
Depois de muito caminhar, ele prendeu o cavalo numa árvore no pé da montanha antes de seguir pelo caminho pisoteado que vai até o topo. A cada passo que dava, seu peito errava as batidas como se fosse um adolescente outra vez. Era um sentimento novo, assim como os muitos outros que Yuder o fez sentir.
Assim que chegou no topo, seus pés pareceram se afundar no chão, sem força alguma para sair do lugar.
Na entrada da pequena casa, Yuder estava sentado com o rosto voltado para cima, recebendo tudo o que o sol da manhã podia lhe oferecer, com pernas esticadas e mãos apoiando-o no chão de madeira. As sobrancelhas finas estavam relaxadas, dando-lhe um ar ainda mais jovial, enquanto os lábios úmidos, entreabertos, moviam-se imperceptivelmente com sua respiração lenta.
Diferente do uniforme negro da Cavalaria, ele usava uma calça bege larga e uma camisa ainda maior, expondo sua clavícula e pescoço branco, com os fios pretos que passavam de seus ombros cobrindo-o, voando em seu rosto devido o vento.
O corpo de Kishiar moveu-se por si só. Um passo e outro passo, devagar, como se tentasse se aproximar de um gato arisco. Com o terceiro passo, os olhos até então fechados piscaram vagarosamente, acordando de seu descanso. Kishiar parou no momento que o rosto pálido foi para sua direção.
Os olhos negros, normalmente tão escuros quanto os cabelos do dono, estavam violeta graças ao sol iluminando o rosto pálido. O violeta e o vermelho se encontraram, mas a reação de Yuder foi diferente da apática que Kishiar esperava.
As sobrancelhas subiram e os lábios secos ficaram partidos, olhos fixos em seu rosto como se sequer respirasse. Um segundo depois, as mãos apoiando o corpo saíram do chão e ele piscou com força, tentando despertar do que parecia um sonho. Os lábios de Kishiar tremeram junto aos de Yuder.
— Comandante?
Os pulmões de Kishiar esvaziaram-se quando ele soltou todo o ar que prendeu sob a atenção do homem. Os olhos fatigados de Yuder se esbugalharam e ele recolheu as pernas esticadas. Os de Kishiar brilharam extasiados, observando, mesmo que afastado, cada mínima mudança no rosto do outro.
Ele deu um passo à frente. Yuder impulsionou-se para cima, levantando abruptamente. Kishiar sorriu sem parar de se aproximar, deixando-se ser observado como se fosse uma assombração, o que deveria ser para o homem.
— Yuder.
Os olhos inquietos prenderam-se no carmesim infinito de Kishiar e um arrepio intenso subiu todo o corpo de Yuder. Kishiar deu mais um passo e, pela primeira vez, o outro recuou. Ele subiu um degrau de costas, apertando os lábios com força o suficiente para eles embranqueceram.
A expressão suave de Kishiar tremeu, mas ele não parou. Felizmente, Yuder não se afastou outra vez.
A distância entre eles poderia facilmente sumir se Kishiar subisse o primeiro degrau da escada, mas ele não o fez, deixando seus rostos alinhados. Ele tombou a cabeça suavemente quando Yuder cerrou os punhos, engolindo seco.
— Como você está, Yuder? — perguntou mansamente, baixo para que ninguém além do outro à sua frente o escutasse.
A resposta demorou a vir. Os olhos negros, fora do alcance do sol, analisaram aqueles que se assemelhavam a rubis, refletindo sua imagem sem qualquer pingo de remorso. Não havia qualquer sinal de ódio, arrependimento e nem sequer de raiva.
— Por que… você está aqui? — ele indagou lentamente, tendo dificuldade de proferir suas palavras. Os dedos longos de Kishiar tocaram o parapeito ao lado de Yuder, que seguiu o movimento inquietamente.
— Eu só queria ver você.
— Para se livrar de mim?
Os lábios de Kishiar tremeram e ele não conseguiu conter o riso, tão incrédulo que olhou Yuder como se ele estivesse louco.
A mão no parapeito subiu, aproximando-se do rosto tenso. O polegar acariciou a bochecha fofa e deslizou para a orelha de Yuder, prendendo alguns fios escuros atrás dela.
— Não, nunca. Eu não ousaria.
Os olhos que acompanhavam a mão próxima voltaram ao rosto bonito quando, hesitando, Kishiar afastou-a devagar.
O sorriso do loiro enfraqueceu e ele olhou para os lados, vendo, como esperado, ninguém além dos dois. De dentro da casa, o único som que ouvia era o da lareira acesa. No chão da varanda, próximo de onde Yuder estava, havia dois potes, um com água e outro com comida, completamente intactos apesar de frescos.
— Yuder — chamou outra vez, um pouco mais alto, pisando no primeiro degrau. Ele tombou a cabeça com um olhar sinuoso —, você não vai me convidar a entrar?
Yuder seguiu os olhos do homem para dentro da casa, piscando indiferente. Ele suspirou mudamente e deu um passo para trás, indicando para dentro com a cabeça.
— Fique à vontade.
Kishiar seguiu a figura que entrou na frente. Fazendo jus ao pedido, ele tirou a capa e deixou-a dobrada sobre o móvel próximo da porta, que ficou aberta. Depois, seguiu para o sofá na sala pequena e sentou-se sem problema algum. Yuder, que observava-o se mover bem acomodado, olhou para a cozinha, recebendo um olhar questionador de Kishiar.
— Só tenho água e café. Você quer algum? — Kishiar piscou algumas vezes e abanou.
— Estou bem. Obrigado.
Os olhos escuros voltaram a Kishiar, que sorria charmosamente, e ele se aproximou em passos lentos, sentando na cadeira do outro lado da mesa de centro.
Kishiar observou as paredes sem muitas decorações, impregnadas com o cheiro de café. Depois, juntou as mãos no colo e observou o homem à sua frente. Seus olhos suavizaram ao vê-lo de forma tão casual, provavelmente recém-acordado.
— Que tal começarmos de novo?
— Como? — Yuder piscou, perdido, não muito diferente de um gato. Kishiar sorriu com a comparação.
— Eu sou Kishiar.
O loiro se apresentou casualmente, olhando-o à espera de uma resposta. A testa momentaneamente franzida de Yuder suavizou lentamente e seu olhar varreu toda a figura relaxada. Ele não conseguia entender a intenção dele, mas decidiu imitá-lo.
— Eu sou Yuder.
— Yuder? Uhm – ele segurou o queixo, pensando profundamente. Os olhos vermelhos subiram para o rosto sério e ele sorriu —... Que tal nos conhecermos melhor, Yuder?
Yuder piscou com o crepitar do fogo. Sua boca abriu para responder.
— Tudo bem.
