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O sol já estava alto no céu quando a capital começou a ganhar vida. Era verão, e a temperatura escaldante anunciava o calor intenso que todos teriam que enfrentar. As avenidas principais estavam fechadas ao trânsito, transformadas em um vasto circuito para a tão esperada maratona de ciclistas. Essa era uma das competições mais prestigiadas do ano, atraindo atletas profissionais e amadores de todos os cantos.
As ruas estavam repletas de espectadores, famílias com chapéus de palha e óculos escuros, todos tentavam escapar o máximo possível dos raios solares. Os vendedores ambulantes oferecendo água gelada e sorvetes salvaram vidas àquela altura.
O ponto de partida estava montado em uma grande praça cercada por arranha-céus, cujas sombras ofereciam um alívio temporário para os competidores que se alinhavam com suas bicicletas brilhando sob o sol.
Entre as centenas de ciclistas vestidos com roupas coloridas e capacetes aerodinâmicos, havia Han Jisung, de pé ao lado de sua bicicleta nova. Ele usava um uniforme amarelo vibrante, que parecia muito mais profissional do que ele se sentia. O suor escorria de sua testa antes mesmo da largada, mas não era só o calor que o fazia transpirar — era o nervosismo de participar de sua primeira maratona.
Jisung olhou para os lados, observava tudo com um misto de ansiedade e admiração dos outros participantes. Eles pareciam tão confiantes, ajustando capacetes, testando os freios e trocando sorrisos tranquilos. Ele, por outro lado, mal sabia como pedalar direito. Desde o começo, seus amigos haviam brincado sobre sua falta de habilidade, e ele só aceitou participar como uma forma de provar para si mesmo que podia encarar o desafio. Mas ao olhar para a multidão de ciclistas experientes ao seu redor, se sentiu completamente deslocado.
A buzina de largada soou com um estrondo e, em um piscar de olhos, todos os ciclistas partiram. A sinfonia mecânica das rodas deslizando no asfalto e os pedais girando entrou na mente de Han. Ele tentou acompanhar o ritmo, mas logo percebeu que estava muito mais fora de controle do que esperava. Inclinava-se para frente, tentando ganhar velocidade, mas o equilíbrio da bicicleta parecia escapar de suas mãos. Seus pés se moviam desajeitadamente nos pedais e ele começou a oscilar de um lado para o outro.
Por algum tempo, tudo parecia bem. Até que a primeira curva surgiu, e foi aí que tudo desmoronou. Jisung, tentando ajustar a posição, trocou os pés sem querer. Ao invés de frear suavemente, pisou com força total no pedal errado. A bicicleta balançou e desviou para o lado. Ele tentou recuperar o controle, mas já era tarde demais. Colidiu com o ciclista à sua direita, que bateu no próximo e, assim, criou uma reação em cadeia.
O caos se instalou. Vários ciclistas caíram no chão, suas bicicletas se enroscando em um emaranhado de rodas e guidões. Alguns espectadores soltaram exclamações de choque, enquanto outros apenas observavam incrédulos a cena digna de um filme de comédia. Jisung, caído no chão e atordoado, demorou um momento para processar o que aconteceu. Enxergou os outros ciclistas se levantando, esfregando os cotovelos e rindo da situação. Ninguém parecia gravemente ferido, para o seu alívio.
Apesar do desastre, o clima ficou relativamente leve. Alguns dos ciclistas se aproximaram dele, dando tapinhas no ombro e dizendo coisas como " Acontece nas melhores famílias " e " Primeira vez, né? ". Jisung sorriu nervoso, tentando rir junto, mas no fundo sentia o peso da vergonha queimando mais forte que o sol daquele dia.
Após o acidente na maratona, Han Jisung entrou em uma espécie de torpor. Ele caminhou junto da bicicleta amassada enquanto os oficiais da organização do evento o encaminhavam para o lado da pista. Ele mal conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. A sua primeira maratona se transformou em um desastre monumental, e para completar a humilhação, ele precisava prestar esclarecimentos na delegacia.
Enquanto aguardava o transporte oficial, Jisung observava o restante da corrida continuar. Os ciclistas mais experientes ainda pedalavam em alta velocidade, parecendo inabaláveis pelo caos que ele havia causado momentos antes. As sirenes de uma viatura ao longe ecoavam pela cidade, se misturando com os murmúrios dos espectadores e os gritos dos vendedores ambulantes. A cidade, agitada e ensolarada, não parecia ter parado nem por um segundo.
Pouco depois, uma viatura apareceu para levá-lo até a delegacia local. O calor dentro do carro era quase insuportável e Han já estava suado e desconfortável o suficiente. Se afundou no assento. Ele ficou em silêncio, ainda envergonhado, olhava pela janela as ruas da capital que passavam rápido. Seus pensamentos se voltavam para as inúmeras reclamações que provavelmente o esperavam.
Ele não era do tipo que se metia em confusões, o simples fato de entrar em uma delegacia já era suficiente para fazer sua mente correr com os piores cenários. Será que ele teria que pagar multas gigantes? Seria banido de qualquer outra competição? O que seus amigos diriam? As perguntas o irritavam.
Assim que entrou na delegacia, o ambiente interno parecia o oposto do caos da maratona. Era um local mais frio e silencioso, com o ar-condicionado funcionando a todo vapor, em contraste com o calor sufocante do lado de fora. Policiais em uniforme circulavam com pastas nas mãos, conversando baixo entre si ou falando ao telefone. O som de teclados e impressoras enchiam o ar.
Jisung foi conduzido para uma pequena sala no fundo, onde prestaria seu depoimento. Ao entrar, ele se deparou com o policial designado para interrogá-lo: Bang Chan. Jisung imediatamente notou o sorriso carismático e relaxado no rosto do oficial, que não parecia nem um pouco incomodado com a situação.
Chan estava sentado casualmente à mesa, folheando alguns papéis conforme aguardava Jisung. Seus cabelos estavam perfeitamente alinhados, e havia algo no modo como ele mantinha a postura — descontraído, mas ao mesmo tempo atento — que imediatamente chamou a atenção de Jisung.
— Han Jisung, certo? — Chan sorriu amistoso. — Você teve um dia... interessante, pelo que parece.
Jisung riu sem jeito. Sentou-se na cadeira com uma leve coceira na nuca.
— Interessante não é bem a palavra que eu usaria.
Chan deixou escapar uma risada curta e começou a revisar a ficha à sua frente.
— Nós temos várias queixas de você aqui sobre a sua pequena confusão na maratona. Parece que você acabou derrubando uma meia dúzia de ciclistas. Está tudo bem com você? Sem ferimentos?
Jisung assentiu, sentindo um calor subir para o rosto.
— Estou bem, só... mais vergonha do que qualquer outra coisa.
— Vergonha, hein? — Chan respondeu, se encostando na cadeira e cruzando os braços. Estreitou os olhos em um sorriso. — Não se preocupe, acontece nas melhores famílias. Embora, é claro, você tenha conseguido causar uma comoção considerável.
Jisung se sentiu um pouco mais à vontade com o tom leve de Chan, mas ainda não sabia exatamente como reagir. Ele sabia que estava ali por um motivo sério, mas a maneira como o policial conduzia a situação deixava a atmosfera quase descontraída. Quase como se fosse uma conversa casual entre dois conhecidos, ao invés de um depoimento formal.
— Olha, Jisung, vou ser sincero com você — Olhou para os papéis outra vez. — Parece que algumas pessoas ficaram irritadas, mas ninguém se machucou de verdade. Então, você só precisa preencher alguns documentos, dar o seu lado da história, e acho que conseguiremos resolver isso sem maiores problemas.
Jisung soltou um suspiro aliviado.
— Então eu não estou encrencado?
Chan balançou a cabeça, um sorriso surgindo no canto de sua boca.
— Nada grave. A não ser que você esteja planejando participar de outra maratona em breve, aí talvez eu tenha que te escoltar até a linha de chegada.
Os dois riram e o humor leve quebrou o gelo restante. Mas, havia algo mais no restante da conversa. O modo como Chan olhava para Jisung, o jeito despreocupado com que ele falava. Jisung não podia deixar de sentir que havia uma faísca no ar. Flertes sutis se misturaram com o ambiente sério da delegacia. No final da conversa, Jisung percebeu que, apesar do desastre que foi o dia, talvez algo de bom pudesse sair dali.
— Então, Jisung — Chan finalizava os papéis. — Da próxima vez que quiser praticar antes de uma maratona, talvez eu possa te dar umas dicas pessoalmente.
Jisung arregalou os olhos. Surpreso, mas não insatisfeito pelo convite inesperado, sorriu. Tentou esconder a timidez, mas falhou.
— Vou lembrar disso.
⋰
Um mês depois do incidente na maratona, a vida de Han Jisung, surpreendentemente, havia mudado para melhor. Ele nunca teria imaginado que o desastre que causou durante a corrida acabaria o levando a encontros regulares com Bang Chan, o policial charmoso. Naquele dia, como em muitas outras manhãs recentemente, os dois estavam sentados juntos em uma cafeteria aconchegante no centro da cidade.
Era uma manhã ensolarada de outono, o calor sufocante do verão já havia diminuído e deu lugar para um clima ameno e agradável. O aroma de café fresco estava agradável junto do cheiro doce de bolos recém assados. Jisung e Chan estavam sentados em uma mesa perto da janela, onde a luz do sol entrava gentilmente, iluminando seus rostos.
Jisung soprava a superfície do seu café, mais relaxado do que nunca na presença de Chan, apesar de ainda sentir aquele leve frio na barriga sempre que o policial o olhava de um jeito mais demorado.
Chan sorriu enquanto mexia em sua própria xícara.
— Eu ainda não consigo acreditar que você sobreviveu à maratona sem quebrar nada. Ou ninguém.
Jisung riu, jogando a cabeça para trás e quase derramando o café no processo.
— Ei! Eu já disse, foi só um pequeno acidente. Tá, um grande acidente, mas você não precisa me lembrar disso toda vez que a gente se vê!
— Como se eu fosse deixar essa passar! — Chan respondeu com uma risada baixa que fez Jisung sorrir involuntariamente. — Eu deveria te levar de volta lá pra ver se você consegue refazer aquele caos todo.
Jisung fingiu estar ofendido.
— Eu ouvi dizer por aí que eu sou uma lenda entre os ciclistas agora. " O garoto que causou o maior acidente de todos os tempos ". Aposto que já me esqueceram.
Chan riu de novo, desta vez mais alto, atraindo a atenção de alguns clientes ao redor. Ele se inclinou para frente na mesa, seus olhos brilhando com diversão.
— Oh, eles não te esqueceram. Tenho certeza que estão te esperando com placas de " Cuidado: Ciclista Perigoso ".
Jisung deu um leve empurrão no braço alheio.
— Você é terrível.
Chan balançou a cabeça.
— Eu sou terrível? Você é que derruba uma meia dúzia de pessoas e depois acha que ninguém vai lembrar.
Os dois riram. Era difícil acreditar o quanto a dinâmica entre eles havia se desenvolvido em tão pouco tempo. O flerte sutil e as provocações divertidas eram constantes, Jisung se pegava esperando por esses momentos com Chan mais do que admitiria.
Quando as risadas diminuíram, Chan olhou para Jisung com um olhar mais suave, se inclinando levemente sobre a mesa.
— Sabe, Jisung, eu estava pensando... a gente já se encontrou várias vezes, e eu acho que nunca te vi realmente... relaxado. Tá tudo bem?
Jisung hesitou por um momento. A mudança no tom de Chan o deixou surpreso, mas tocou a borda da sua xícara com o dedo.
— Na verdade, acho que é só porque você me deixa meio nervoso.
Chan ergueu uma sobrancelha.
— Nervoso, é? E por quê?
— Você sabe muito bem o motivo, hyung. — Jisung corou e desviou o olhar para a janela.
Chan inclinou ainda mais para perto com uma risada leve: — Talvez eu saiba, mas gosto de ouvir você dizer.
— Você é muito convencido, sabia? — Jisung revirou os olhos, mas um sorriso tímido brincava em seus lábios.
— E você me adora assim — Chan respondeu sem hesitar, dando uma piscadela.
Jisung não pôde evitar a risada que escapou. Havia algo tão fácil e leve nas interações com Chan. Mesmo nas provocações e brincadeiras, havia uma conexão natural, um entendimento silencioso que crescia a cada encontro. Eles não precisavam de grandes gestos ou declarações; os pequenos momentos eram suficientes.
Enquanto tomavam o café, Chan continuou a contar histórias engraçadas de seu trabalho como policial, e Jisung ouvia atentamente, rindo em alguns pontos e fazendo perguntas em outros. Era uma manhã perfeita – o tipo de manhã que Jisung nunca teria imaginado há um mês.
Jisung olhou para a xícara vazia à sua frente. Parecia refletir anos de existência.
— Se alguém me dissesse que eu iria conhecer alguém tão incrível depois de causar o maior acidente da minha vida, eu não teria acreditado.
Chan continha um calor evidente nos olhos.
— A vida tem dessas surpresas, né? E olha só, agora estamos aqui, rindo disso tudo.
Jisung sentiu seu coração bater um pouco mais rápido.
— Sim... agora estamos aqui.
E continuaram ali por um bom tempo.
