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Sevika gostava de muitas coisas. Ênfase na palavra gostar, porque isso era mais fácil de falar quando alguém perguntava algo a ela — geralmente sobre seus gostos ou hobbies, porque ninguém seria estúpido o bastante para perguntá-la algo íntimo demais. Ninguém queria acabar levando um soco de seu braço mecânico e acabar com uma fileira de dentes a menos na boca.
Ironicamente, essas situações também renderam a ela um pouco de diversão, principalmente quando as pessoas entendiam errado suas palavras — e por vezes supunham que Sevika fazia mais do que suportar e lidar com algo. Isso foi mais comum nos anos em que foi leal a Silco, quando alguns estavam curiosos para entender o motivo dela ter mudado de lado.
Como se fosse uma grande surpresa. Como se Sevika tivesse dito que seria leal a Vander pra sempre. Ela não tinha feito isso com ninguém! Nem para Silco e nem para Vander. No entanto, mesmo depois que o Olho de Zaun morreu, os imbecis ainda levavam seus comentários secos a sério.
Porra, parecia uma piada. Não era nada demais, mas as pessoas insistiam em interpretar além da conta alguns resmungos dela. Em agir como se Sevika fosse a mulher mais sincera da Subferia. Ela nunca foi. E nunca escondeu isso. Nenhum zaunita que prezava pela sua sanidade era completamente honesto.
A honestidade tinha um preço. E um preço que seu pai a ensinou a sempre cobrar.
Mas mesmo depois de ouvir os boatos, ela deixou pra lá. Nunca perdeu tempo corrigindo os bêbados, não quando uma fofoca ou outra não fazia mal a sua reputação. O medo nos olhos das pessoas sempre foi algo que Sevika gostou, então não era como se a irritasse toda vez. E mesmo se acontecesse, era fácil de lidar com merda do tipo. Com violência, por exemplo. Porque uma briga sempre fazia milagres pelo seu humor.
Enfiar o punho na cara de um idiota era quase… relaxante.
E, em um lugar cheio de violência — escorrendo pelas paredes, molhando as ruas, ou até nas pequenas coisas, como ensinamentos —, num lugar onde a morte andava de pantuflas, não fazia diferença. Não era como se nunca tivesse matado alguém.
Matar não era especial. Não era difícil. Era o cotidiano. Tão comum quanto o sol nascer na Cidade do Progresso.
Sevika não era idiota. Sabia exatamente o que estava fazendo quando erguia uma sobrancelha, ficava em silêncio por um tempo e deixava a pessoa do outro lado da mesa supor o que quisesse. Sabia como mencionar algo, de passagem, e as pessoas interpretarem de outra maneira, projetando algo nela ao invés de realmente entender o que queria dizer.
De novo: era divertido, meio patético às vezes, e rendia a Sevika um sorriso no canto da boca quando ela percebia que os idiotas tinham entendido errado, mas era só isso. Ela não perdia tempo pensando no que aquilo implicava, apenas seguia a vida, engolindo outro gole de álcool e bufando mal-humorada quando a pessoa ria, se achando a esperta por tirar algo da Scary Lady.
Outro idiota. Mais um na pilha de imbecis que se achavam os espertinhos.
Sevika nunca viu sentido em tentar fazer os caras entenderem como ela funcionava ou qualquer merda do tipo. Apenas revirava os olhos e continuava jogando, esperando o outro lado jogar suas cartas e apostar suas moedas. No final, ela ia vencer de qualquer forma.
Foi por isso que a convivência com Vi mudou algumas coisas, mesmo que de pouco em pouco. No começo, Sevika não levou os sinais a sério. Ela percebeu que Vi a observava por mais tempo do que o normal quando as duas estavam jogando cartas, mas atribuiu isso à ruiva tentando ler seus movimentos.
Não era de hoje que alguém procurava brechas em sua postura, tentando descobrir qual carta Sevika tinha em mãos e se sua mão era boa pra caralho, mesmo que estivesse com uma expressão neutra no rosto. Então deixou passar, dando de ombros mentalmente e seguindo com o jogo.
Assistir a frustração das pessoas, principalmente quando falhavam e desistiam de tentar decifrar sua linguagem, era uma das poucas alegrias da sua vida na Subferia. Divertido o bastante para Sevika se pegar rindo baixinho com um charuto na boca toda vez que Vi perdia mais uma rodada, o que resultava na ruiva soltando uma onda de palavrões quando escutava.
Não era rotina, nem era o ideal depois do tanto de merda que Sevika lidava, mas ela deixou acontecer — um dos primeiros deslizes, o primeiro erro, ela suponha.
Contudo, mesmo perdendo várias vezes, Vi sempre tirava mais moedas do bolso, pedindo por outra rodada, com uma expressão determinada que Sevika já perdeu a conta de quantas vezes tinha visto. Isso sem mencionar o fogo por trás dos olhos de Vi, o qual Sevika fingia que não era atraente pra caralho.
Hm, por que não? Apenas mais uma rodada.
Que mal faria, não é?
Mas uma rodada se transformou em duas, em quatro, em seis, e naturalmente terminou com Vi vencendo pela primeira vez — o que foi um puta golpe de sorte, porque nem ferrando que a ruiva tinha mais moedas para gastar em outro jogo.
Foi... impressionante. Não o fato de que Vi venceu — Sevika era muitas coisas, mas invencível não era uma delas; não teria graça jogar se ela vencesse sempre, afinal —, mas sim que ela não desistiu, mesmo com todas as provocações da mais velha.
Mesmo nos dias em que Sevika tocava em um assunto sensível, sabendo pela maneira como Vi apertava as cartas em mãos com força e o seu rosto ficava vermelho de raiva, a ruiva não pedia por uma luta. Nem voltava atrás; continuava firme, com as cartas na mão e a determinação queimando por trás do olhar azul.
Isso foi o suficiente para Sevika ter certeza de que vencer não era o que Vi queria. O que inevitavelmente fez sua curiosidade aumentar; uma pergunta atrás da outra se formando, o interesse grudando em sua mente como um piolho. Como um maldito lembrete de que algo entre elas estava mudando.
Outro maldito sinal. E ela ignorou. Porque claro que ignoraria.
Não. Não era sobre as cartas. Era sobre… outra coisa. E não saber o que diabos era fez Sevika torcer para que Vi pedisse por outra rodada, para aquela garota teimosa chegar com um saco de moedas em uma mão, um brilho no olhar e uma atitude que teria feito Sevika desferir um soco na cara de qualquer outra pessoa.
Não que ela não quisesse lutar, mas havia algo em Vi que a fazia lidar de uma maneira diferente de como geralmente acontecia.
Droga. É claro que não era mais sobre cartas — era um jogo mais longo, diferente. Um que nenhuma delas queria nomear, não querendo abrir mão do controle idiota que achavam que tinham.
Não foi uma surpresa quando Sevika finalmente conseguiu, em um jogo qualquer, que Vi resmungasse um “Que se foda” antes de levantar, mandando Sevika parar com a brincadeira e lutar de uma vez — tudo por causa de uma piadinha sobre a namoradinha piltie. E foi menos chocante ainda quando elas terminaram fodendo em um beco sujo, deixando as cartas e a luta de lado, como deveriam ter feito desde o começo.
Mas uma transa levou a duas, que levou a mais — em outros becos, contra a parede ou no bordel —, e que inevitavelmente levou-as a irem à casa de Sevika. Contra o sofá, contra o balcão na cozinha, e na cama. Como se fossem algo mais do que inimigas que se… suportavam.
Sim. Essa era a palavra de ouro: suportar. Usar outra não faria sentido. Usar outro termo não era–
Foda-se.
Sevika deveria ter ficado surpresa quando notou o padrão. Deveria ter parado aquilo no instante em que notou que Vi sempre acabava na cama dela — às vezes se convidando depois de um jogo e às vezes fingindo que estava por perto por coincidência. Como se aquela desculpa de merda minimizasse o fato de que ela tinha escolhido bater na porta de Sevika, ao invés de dar meia-volta e ir pra outro lugar!
Violet sempre voltava. Seja com as duas exaustas após mais uma luta, ou entrando pela porta quase tirando a roupa uma da outra, com as bocas coladas como se fossem morrer de sede sem o gosto da outra.
Sevika tinha que ter parado assim que notou o padrão se formando — o primeiro sinal foi em um final de semana, quando Vi deixou um chupão no pescoço dela e ficou orgulhosa demais pro seu próprio bem; e o segundo foi quando Sevika se pegou esperando ela aparecer.
Como se elas fossem algo. Como se não estivessem se xingando há pouco tempo atrás, praticamente se assassinando com um olhar. E, quando notou, todos os fins de semana eram de Violet.
De Violet. Com seu temperamento ruim, com suas escolhas de vida questionáveis e um senso de humor péssimo, mas que, estranhamente, combinava com o dela.
Merda. Sabia que deveria ter colocado um ponto final, dizendo que aquilo não ia continuar e fechado a porta na cara de Vi. Devia ter dito que elas nunca mais iriam jogar cartas ou… dividir um balde de pipoca no sofá.
Porra, ela poderia ter usado alguma desculpa que já tinha feito antes. Tinha diversas na ponta da língua, consequência dos anos que passou focada em lidar com a Indústria de Silco do que em criar laços com as pessoas. Como que ela não queria relacionamentos, que não tinha superado alguma ex (essa era uma das piores que Sevika inventou, mas pelo incrível que pareça funcionava, e isso bastava). Poderia dizer que a outra pessoa estava vendo sinais onde não existiam, ou que simplesmente…
Droga, qualquer coisa. Qualquer merda teria sido útil para fazer com que as duas não se aproximassem. Que Violet ficasse longe e não a incomodasse com um sentimentalismo inútil, que não levaria ninguém a lugar nenhum porque elas não dariam certo. Não eram compatíveis e nunca seriam.
É claro que isso nunca aconteceu. Sevika continuava deixando Vi entrar, continuava rindo baixinho toda maldita vez que a mais nova xingava alto quando perdia outro jogo de cartas. Continuava revirando os olhos toda vez que Vi acabava em seu sofá velho cheio de rasgos, se lembrando de quando as duas tentaram cozinhar juntas e tudo deu errado.
Mas mesmo com uma voz sussurrando no fundo de sua mente, repetindo que estava fazendo uma escolha questionável pra caralho, Sevika não conseguia afastá-la.
Porque Vi já tinha entrado demais na sua cabeça, na sua vida, na porcaria da sua rotina, e até no seu cora—
Ah, foda-se também. Ela já estava na merda mesmo, adiantaria tentar fingir que não? Revirar os olhos, bufar e omitir seus pensamentos era algo que Sevika fazia bem (bem até demais), mas quando se tratava de Vi…
Não era mais tão simples assim.
Foi com esse pensamento que Sevika deixou Vi ficar — de novo, como se aquela garota teimosa não passasse praticamente todos os dias na casa dela —, acordando com um calor corporal perto de si e com um cabelo rosa familiar próximo do rosto. Era Vi, porque claro que era. Estava dormindo, tão próxima de Sevika que parecia buscar o conforto dos braços dela, mesmo depois de tudo. Estava serena, calma, sem a expressão de raiva que geralmente tinha no rosto, mas… puta merda, estava muito bonita.
Que ironia. Sevika nunca imaginou que gostaria da companhia de Vi, que continuaria esperando pela presença daquela cabeça dura em sua rotina. Mas aqui estava ela, sorrindo sozinha apenas de vê-la logo pela manhã — a primeira pessoa que Sevika viu depois de acordar. E ela percebeu que não apenas gostava, mas também… amava.
Que pensamento brega do caralho.
Apesar do quão idiota se sentia, Sevika expulsou todas as dúvidas e todas as vozes que continuavam repetindo que aquilo era um erro. Optou pelo mais simples, pelo que realmente queria fazer: sorriu, fechou os olhos, e puxou Vi para mais perto, ouvindo um resmungo sonolento, mas a ruiva felizmente não acordou; apenas se aconchegou mais e escondeu o rosto no peito de Sevika como se fosse um travesseiro, voltando a dormir.
Droga, isso não deveria acontecer. Mas que mal faria ignorar outro sinal? Que mal faria fechar a porta pra vozinha no fundo de sua mente, e abraçar aquela sensação que preenchia seu peito?
Aquilo estava se tornando comum para Sevika, de qualquer maneira. Ao menos, quando se tratava de Vi. Porque Vi a fazia se sentir… diferente. Era um sentimento que estava aprendendo a gostar. A aceitar.
Porque Vi fazia Sevika amar esperá-la, de tocá-la, de apenas existir ao seu redor.
Cara, que bobagem sem fim. Pra que diabos Sevika foi aceitar aquele jogo de cartas? Que jeito de complicar a vida, hein?
